A cidade como alter-ego do contemporaneismo* – Murilo Braga

Nosso professor Murilo Braga, que além de outras matérias ensina Linguagem Arquitetônica aqui na Pandora, escreveu uma matéria para a revista de Arquitetura Tulha. Apreciem!!
Nós afirmamos que a magnificência do mundo se enriqueceu de uma beleza nova: a beleza da velocidade. Um automóvel de corrida com o seu cofre enfeitado com tubos grossos, semelhantes a serpentes de hálito explosivo… um automóvel rugidor, que parece correr sobre a metralha, é mais bonito que a Vitória de Samotrácia. (Marinetti, 1909)

Filippo Marinetti ao declarar o manifesto futurista em 1909, por mais que desejasse ardentemente a sua efetivação, certamente não supunha a veracidade de sua concretude quase cento e dez anos mais tarde. Concretude esta que, ao contrário da tenaz reivindicação por velocidade de sua voz bradante, se construiu arraigando as suas raízes na vida dos seres humanos e estendendo seus braços entre nossas cidades para que se agrupem quantidades imensas de pessoas.

Para algumas dessas, há um preço a se pagar, a exigência de locomover-se a bem mais que seus confortáveis 6km/h para cumprir demandas de uma rotina que luta para se encaixar em uma jornada diária.

Vemos crescer a olhos nus as nossas rodovias, se alargam pelas marginais, faixas e faixas que demandam e não suprem. Locomover-se dez ou vinte vezes mais que nossas pernas, se tornou intrínseco ao humano, a necessidade privada gerando espaços cada vez mais restritos se comprimindo em locais cada vez mais segmentados.

Nas bordas desses limites, construções que tentam remediar a demanda de moradia, muitas vezes grandes prédios com espaços cada vez menores aonde se agregam famílias inteiras separadas por uma parede física de 40 cm, mas uma cidade inteira de distância. Bairros inteiros desregrados, “cidades dormitórios” à beira das rodovias atendendo a sangria de mais um dia, desertas de vida, pousos eventuais.

A cidade dá voz à urgência da locomotiva humana. Adianta seus dias, mas talvez, não vive nenhum deles. Corre-se para chegar aonde?

Estamos todos atrelados à velocidade de alguma maneira. Temos que suprir as demandas insanas numa quantidade imensa de assuntos a resolver, como um computador responsivo. O impecável trabalho de nossas máquinas resolvem questões em menos tempo, não precisam refletir, assim como nós, aos poucos, também não o fazemos.

Sufoca-se milhões de seres humanos por dia, todos os dias, para que se supere a lentidão do escutar alguém. BBC anuncia em reportagem no ano de 2017: Sobre em 10% a taxa de suicídio no Brasil entre jovens, desde 2002.

A Organização mundial da saúde (OMS) alerta, ainda em 2017, para o aumento em cerca de 18% no número de pessoas que vivem com depressão no mundo. No Brasil, a estimativa de pessoas em depressão é de cerca de 5% da população. A agência ainda ressalta em entrevista ao jornal Estadão que o Brasil tem a maior taxa de transtorno de ansiedade do mundo.

Dados graves como estes não podem se simplificar a um único fator, certamente. Mas ainda na entrevista que a OMS cede ao jornal Estadão em 2017, o especialista ressalta que o estilo de vida em grandes cidades está presente entre os elementos contribuintes.

Precisamos muito refletir sobre quem seremos nesse grande contexto. É claro que há a necessidade de aprumarmos nosso trabalho, aprimorar nossos conhecimentos, mas o que podemos fazer com essa grande empreitada profissional e pessoal?

Tenho conhecido algumas pessoas ao longo de meu trabalho como professor, muitos estudantes de arquitetura, artes e licenciaturas, e é revigorante sentir seus pensamentos, seus questionamentos! O fato de se doar a sentir, deixar-se afetar pelo ser humano, questionar e propor soluções são as maneiras mais ricas de fazer florescer uma mudança!

Essas questões podem surgir diariamente, no trabalho, no estudo, no conceito sobretudo. Mas, talvez a macro questão que gere todos os pormenores seja:

As raízes que temos construído são fortes para que nos sustentemos em pé com toda a bagagem que queremos construir para justificar o que somos?

Murilo Braga

 

*Usando a licença poética, contemporaneismo para mim, com a terminologia ismo se refere a um pensamento doentio, não à contemporaneidade, que se refere ao nosso tempo.

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