Moby Dick

Em 1820, o navio baleeiro Essex foi afundado por um enfurecido cachalote quando estava a 3.700 quilômetros da costa ocidental da América do Sul, no Oceano Pacífico. Em 1851, inspirado pelo ataque de baleia mais marcante da história, Herman Melville utilizou o evento  como base para seu romance Moby-Dick.  Através dos anos, o conto seminal da navegação escrito por Melville inspirou incontáveis versões por meio de histórias, músicas, filmes, animações e quadrinhos. O artista francês Christophe Chabouté entra em cena nessa longa linhagem de variadas interpretações através de um trabalho belamente ilustrado e fiel ao espírito da mais obstinada caçada da literatura com a HQ Moby Dick, publicada no Brasil pela Pipoca e Nanquim em um belo volume de capa dura com 256 páginas. Vale destacar o excelente trabalho de adaptação e editoração da versão brasileira.

 

Chabouté usou uma belíssima arte em preto e branco para dar vida ao conto de Melville sobre a busca insana do capitão Ahab pela baleia branca que tirou sua perna e sua sanidade. Esta não é uma versão excessivamente resumida, e com razão. Abreviar Moby Dick seria errar totalmente o ponto. A aventura precisa de tempo para respirar e se sincronizar com as ondas.

 Enquanto a história gira em torno de uma perseguição épica, muito da prosa nos faz sentir  hipnotizados, olhando simultaneamente em direção ao horizonte e ao interior, absorvidos pelo destino de um navio longe no mar e em lenta, porém obstinada, perseguição ao descomunal cachalote. Chabouté nos coloca em meio as ondas, nos dando singular perspectiva do voo dos pássaros e da inquietação dos homens. As gaivotas são retratadas como respingos de tinta importunando os baleeiros, enquanto estes se preparam para lutar as batalhas infernais do Capitão Ahab.  Os detalhes  do navio baleeiro Pequod contrastam com os respingos e colisões das baleias, lembrando-nos que a ordem forçada dos homens se despedaça diante dos movimentos caóticos da natureza.

 

Chabouté mostra o despertar da tripulação ao se darem conta de que não são mais apenas baleeiros, mas peças no tabuleiro infernal de um enlouquecido egomaníaco.  Expressões ríspidas e olhos arregalados percorrem as páginas, iluminando sentimentos e realizações.  O preto e branco de Chabouté traduz com mestria a gama de sentimentos de Ahab e da tripulação.  Sente-se tanto o isolamento quanto a determinação que o homem leva em sua jornada rumo ao desconhecido.

Se mergulhar em clássicos da literatura o faz sentir-se de alguma forma intimidado, pense em começar com o Moby Dick de Chabouté. É uma aventura acessível, porém belamente traduzida para os quadrinhos, repleta de sentimento e poesia. Uma adaptação que certamente agradará tanto a conhecedores da obra de Melville quanto a marinheiros de primeira viagem.

 

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